A geração que não sabe esperar por nada

É engraçado quando a gente se dá conta que estava errado sobre a vida depois de tantos anos. Uma vez me disseram que a gente só aprende uma lição quando já não precisa mais dela. Eu discordo. Acredito que a gente aprenda lições enquanto precisamos delas e não percebemos o processo porque estamos distraídos demais pensando que a vida é mais os fins que os meios. A vida é começos, meios e fins. Perde de vivê-la quem só valoriza seus extremos — começos e fins. É justamente aquele tipo de pessoa que vai acordar segunda-feira de manhã reclamando e só vai se sentir no direito de ser feliz quando a sexta-feira chegar. É quem deixa sua felicidade ser movida por circunstâncias, não quem a encontra apesar das circunstâncias. É o típico cara que não tem paciência para esperar por nada. É essa geração. Eu e você.

Eu costumava pensar que a vida tinha que ser uma espécie de quebra-cabeça. Sem sobras, sem falhas, perfeitamente encaixável. Terminar a escola, entrar na faculdade de engenharia, se formar aos 22, ter sucesso antes do 30. Carreira consolidada, família formada. Eu, o cara da minha vida, nossos filhos, um cachorro e um gato. Sem hiatos. Mas a vida nem sempre é o que a gente espera. Ainda bem.

Os hiatos são necessários. As sobras, as perdas, os desencaixes. Mas isso a geração que usa o horário de almoço pra estudar outra língua nem sempre consegue entender. Isso a geração que não dorme sem remédio nem sempre consegue entender. Isso a geração que não pode perder nenhum segundo nem sempre consegue entender. A culpa não é de todo nossa, mas esse é o nosso contexto — pressa. Pressa para iniciar e terminar coisas. Essa é a geração imediadista, a geração que não sabe esperar. Para nada. E, por não saber esperar, é a geração que mais deixa coisas para trás. É a geração que mais começa e não termina. É a geração que abandona as sementes por não saber esperar o tempo de colher.

Há um tempo da vida de Jesus entre o seu nascimento e o começo do seu ministério que a Bíblia não relata nada além de um incidente, quando ele estava discutindo e debatendo sobre a lei com os mestres no templo. Eu creio que ele queria ensinar a mim e a você que entre os grandes momentos da nossa vida existem hiatos marcados nem sempre pelos melhores momentos mas muitas vezes por anonimato, solidão, humilhação, dor. Hiatos que parecem tentar nos convencer do nosso insucesso. Mas eles não são o processo, eles são parte do processo. Entre o começo e o fim muita coisa pode e tem que acontecer. Eu e você precisamos lembrar que os topos das montanhas não são a caminhada. Eles são a celebração de tudo o que passamos para atravessar o caminho entre os começos e fins da nossa vida.

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Sâmela Ribeiro

Uma quase engenheira civil que ama café, viagens, gatos, violão, Netflix, gente e Jesus - não necessariamente nessa ordem.