Amor, violão e outras coisas

Eu comecei a aprender a tocar violão quando era adolescente. Lembro como se fosse hoje da minha frustração ao sair da primeira aula sem saber tocar uma música sequer. Demorei algum tempo para pegar o jeito e arranhar “Que país é esse?”, do Legião Urbana. Eu estava com pressa, queria aprender tudo em um dia só. Não sabia nada da vida. Machuquei todos os meus dedos tentando acelerar o processo, mas fracassei. Achei que era um caso perdido.

Um dia, meu professor me contou que uma pessoa demoraria cerca de 600 anos para aprender tudo sobre violão. Eu nunca mais esqueci dessa frase. Eu não era um caso perdido. Eu só precisava respeitar o tempo pra não me machucar tanto e me frustrar tantas vezes.

Ora, essa história de “você tem o dom pra violão” é conversa fiada. Ninguém nasce tocando bossa nova. Todo mundo pode tocar o que quiser, mas tem que ralar e ter paciência no processo, em tudo na vida. O amor, o violão e outras coisas funcionam nessa lógica.

Muita gente comete mil erros na vida e se condena a cada dia que acorda respirando. Soa clichê, e é, mas todo mundo comete erros. Se quiser recomeçar, recomece. É isso que importa. Eu vivo por princípios que nem todo mundo concorda, e eu sei disso. Mas são meus valores. Eu já me enganei comigo mesma várias vezes, mas todos os dias tento aprender, em respeito a mim e a quem um dia eu vou passar o resto da vida ao lado. Eu não sou o tipo de pessoa que a todo custo tenta coagir outras a abraçarem o mesmo estilo de vida que o meu, mas vou estender a mão se elas precisarem, e ensinar o que sei se elas quiserem saber.

Somos todos adolescentes aprendendo a tocar violão. Não dá pra aprender tudo da noite do dia, nem por isso se deve desistir do amor. O processo não é fácil, mas vale a pena. É melhor dedicar a vida tentando aprender algo e ainda assim cometer erros, do que cometer muitos erros por não querer aprender.

A lição foi dura de aprender pra mim, perfeccionista, teimosa e ingênua, e talvez seja para todo mundo que se cobra pelo menos um pouco. Eu chorei bastante, entrei em desespero várias vezes, questionei muita coisa. Perdi e ganhei muito no decorrer desse caminho louco que eu não podia controlar. Não tomar um passo de coragem por medo de errar é o que nos impede de viver. É querendo não errar em todo tempo que a gente erra. Eventualmente, vamos cometer erros, mas isso não pode nos tirar do caminho. Porque, às vezes, o que a vida pede é que a gente caminhe, mesmo sem entender o caminho, e que a gente recomece todas as vezes que por alguma razão as coisas não saiam como o planejado. A vida não acaba quando as coisas não acontecem do nosso jeito. Pelo contrário. Ela mostra que o nosso jeito não é o único e que seria egoísta demais querer controlar um universo tão grande e infinito de possibilidades. Não machuque seus dedos tentando aprender tudo de uma vez.

Ah, eu aprendi a tocar violão. E descobri que ninguém é um caso perdido, a não ser que se recuse a aprender.

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Sâmela Ribeiro

Uma quase engenheira civil que ama café, viagens, gatos, violão, Netflix, gente e Jesus - não necessariamente nessa ordem.