Cabeça de saco

Então, eis que a data, o local e o horário estão marcados. Documentos necessários já separados, currículo idem e roupa escolhida. A ansiedade para uma entrevista de emprego deixa quase todos sem dormir. O que falar? Como se portar? Um tom mais comportado e sério ou um estilo mais despojado e leve?
Chega o grande dia e, de frente pra entrevistadora, após algumas poucas perguntas onde julgo me sair muito bem, ela saca um: “Qual o seu maior defeito?”. “Mas, espera aí!”, penso eu. “Não havia me preparado para essa pergunta”. E até que estivesse, falaria mesmo isso ou aquilo?
Quantos de nós já não passamos por essa situação?
Quantos também já não emendaram um: “Meu maior defeito é ser perfeccionista demais”?

Por que temos tanta dificuldade de listar os próprios defeitos numa entrevista de emprego?
E se formos ampliar essa questão, por que temos tanta dificuldade de listar os próprios defeitos ao cônjuge muitas das vezes? Por que temos visto muita gente dizer, após um tempo no casamento: “Não foi com essa pessoa que eu me casei”, ou “No namoro não era desse jeito”, ou ainda o absurdo de alguém próximo dizer que “Está assim agora; você vai ver após o casamento”? Por quê?

Quantos já tiveram a coragem de dizer nos seus relacionamentos, não só casais, amigos também: “Eu sou mentiroso”, “Sou pornográfico”, “Julgo em demasia as pessoas sem as conhecer por completo”. “Sou um alcoólatra”, “Eu me masturbo”, “Tenho a mania de pegar as coisas e não devolver, mesmo tendo condições de comprar”. “Eu olho pra mulher (ou homem) dos outros/as”, e taaantos outros pequenos (ou não) delitos, erros e pecados?

E não me refiro somente a pessoas falsas ou com desvio de caráter, não. Falo também (talvez) de mim e de você; pessoas boas, justas, honestas. Falo de pessoas que gostamos e as conhecemos, mas, que simplesmente, não conseguem se enxergar com a transparência necessária. Mentem (ou escondem) para os outros e pra si mesmas. Por que temos tanta dificuldade em reconhecer, mensurar, discernir, avaliar, diagnosticar isso, em nós. Parece que nos outros, isso salta aos nossos olhos, né? De onde vem essa miopia?

A resposta a tantos “porquês”, talvez, seja pelo fato de que, ou imaginamos que “ser humano” é tentar acertar mediante a prática de muitos erros (Rm 6:14-16); e isso, nada mais é do que tentar “dar murro em ponta de faca”. Ou porque achamos que, tendo chegado à determinada posição de maturidade ética e espiritual, nossos erros são irrelevantes, comparados à moral de nossa sociedade; e isso, nada mais é do que orgulho e vaidade (uma vez que, tendamos a ter uma justiça própria; achando-nos merecedores de alguma coisa). Ou porque queremos ser aceitos a todo custo. Muitos querem ser o que a sociedade quer que ela seja. A tendência é sermos frutos de uma demanda dessa sociedade (ou uma cópia de outros) e não uma versão original de si mesma (ainda que com defeitos e ajustes a serem feitos); e isso, nada mais é do que uma autodesvalorização.

Quem seria capaz de nos conhecer por completo, senão Aquele que nos criou (Jr 17:9,10)? Por isso, não devemos confiar apenas em nossas consciências, no que diz respeito à percepção de erros cometidos. Concorda?

“Quem pode perceber os próprios erros? Purifica-me dos que ainda não me são claros.
Da mesma forma livra teu servo do orgulho, para que ele nunca me domine; então experimentarei a integridade, e serei inocente de grande transgressão.” –
(Sl 19:12,13)

Vale lembrar que:
Moeda escondida no bolso é, apenas e tão somente, um simples pedaço de metal.
Moeda fora do bolso continua a ser um simples metal; só que agora, de um lado mostra o rosto, do outro seu real valor.

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Elmo do Couto de Oliveira