Dona Maria e Seu João


 Ouvi de uma amiga um relato sobre um casal que ela conheceu recentemente. Tinham o que qualquer casal tem: uma história juntos. O que os fazia ser tão especial, a ponto de encantarem uma desconhecida – que é essa que vos escreve?
Dona Maria e seu João viveram um grande amor, repleto de aventuras, risadas, mãos dadas e me arrisco a dizer, com algumas lágrimas também. Nada muito diferente dos romances épicos que assistimos na televisão. Mas mesmo assim, a vida os surpreendera. Dona Maria, hoje, já não se lembra de seu João.
      E apesar de viver com esse lapso irrecuperável de memória da sua esposa, seu João não a esquecera. E isso é tão real que foi capaz de contar sobre ela e sobre o que viveram e ainda sim, ter os olhos brilhando de encanto, como se a tivesse visto pela primeira vez. Recebi esse texto da minha amiga que teve o privilégio de conhecer e conversar com esse senhor. Espero que você sinta o que eu senti – o coração se apertando de compaixão e uma vontade enorme de abraçar seu João.
“Ela não sabe quem sou. Não reconhece minha voz. Tanta vida refém de um esquecimento. O contorno do seu rosto ainda é o mesmo. Ela olha ao seu redor e não reconhece seu lar. Dizem que família é base, ela era mais. Era pilar, sustentava toda estrutura e dava a forma feliz que sempre tivemos. Hoje tenho lembranças. Quando fecho os olhos ainda consigo ouví-la.Sua memória é viva em mim. Talvez essa seja a essência da vida. Marcarmos a vida das pessoas que amamos, de forma que mesmo quando não exercemos mais nossos papéis ainda reconhecem nosso valor. Ela foi, é e sempre vai ser vida..Força..Determinação..  Não tem mal no mundo que assole meu sentimento, não tem doença na mente ou no corpo que apague as marcas que trago na alma. Ela formou quem sou e hoje ainda me ensina.. Nosso lar não é feito de paredes, é feito de almas que tocamos com nosso amor. Obrigada por tocar minha alma e marcá-la de forma que ainda me sinta amado mesmo que seus olhos não saibam mais quem sou.”
         Quando terminei de ouvir esse texto, sussurrei baixinho em meu coração: “Tomara que eu encontre um seu João.” Pensando bem, acredito que mais pessoas podem ter esse desejo também. É como o Padre Fábio de Melo disse em um de seus vídeos, só fica por perto quem descobriu nosso significado, mesmo quando não formos mais úteis.
Vivemos em um momento da sociedade em que buscamos utilidade para tudo, e se não satisfazer nossas necessidades mais, para que o teríamos, então? E aí, casamentos são desfeitos, amizades jogadas fora, famílias abandonadas, apenas porque não eram úteis mais para alguém.
         Seu João descobriu o significado da Dona Maria, e a ama, mesmo que ela nunca mais lembre quem ele é. Isso é coisa rara hoje em dia: pessoas que não desistem uma da outra. E que ficam, apesar das tragédias, mágoas. Tomara que tenhamos a sorte de nos depararmos como pessoas como seu João.

Rebeca Brito de Andrade
Rebeca Brito de Andrade Facebook Twitter Imprimir

Tem 22 anos, é uma psicóloga em construção. Acredita no poder que as pessoas têm de mudar e transformar o mundo delas. Prefere café com leite, sobremesa e só come bolo no dia seguinte. Ah, é, também, filha de pastor!

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