Essa é sua única chance

Um dos meus lugares favoritos nesse mundo de 149 milhões de quilômetros quadrados é uma ruína. Na primeira vez em que estive lá, prometi que voltaria. E voltei. Voltei e me perdi no tempo quando toquei de volta no maravilhoso Muro das Lamentações. Ele é uma parte do que sobrou do muro de contenção do templo construído pelo rei Salomão e reconstruído por Esdras e Neemias. Curiosamente, foi destruído duas vezes – na mesma data. Os judeus choravam a destruição do templo no que restou dele, daí o seu nome.?Todos os dias, gente do mundo todo leva seus pedidos de oração em pequenos rascunhos que caibam entre os vãos do muro. Quando os vãos se enchem, o chão fica coberto de “cartas para Deus” que são cuidadosamente recolhidas no fim do dia e, por fim, queimadas uma vez por ano no dia da destruição do templo.

Era a segunda vez que eu estava ali, mas em um intervalo de 2 anos minha vida havia mudado radicalmente. Nas mãos, meus pedidos de oração escritos em letra minúscula, dobrados em mil pedacinhos. Em meu coração, um sentimento que eu não podia explicar. Fechei os meus olhos, envolvida por uma presença palpável: eu sabia que Ele estava ouvindo. Em minhas súplicas, pessoas que amo, projetos, sonhos, tanta coisa do meu coração… Deixei meu bilhetinho naquelas fendas milenares, enxuguei as lágrimas e fui para o próximo destino, perdida em gratidão. Hora da despedida de um dos lugares mais impressionantes do planeta.

Parafraseando C. S. Lewis, não é engraçado como dia após dia nada parece mudar mas, quando a gente olha para trás, tudo é diferente? Foi o que senti naquele dia. Tudo era diferente. E eu precisei estar no mesmo lugar depois de exatos dois anos para perceber isso. O fato é que mudar é preciso. É preciso acordar cedo em certos sábados da nossa vida, abrir o guarda-roupa e botar pra fora aquela porção de coisas que a gente vive dizendo que vai voltar a usar e não usa. É preciso fazer uma faxina das boas, praticar o desapego no que for necessário e encontrar jogado no fundo do baú aquele velho casaco que a gente achou que tinha perdido. É preciso parar de adiar e encontrar o tempo que a gente sabe que a gente tem. Feito isso, é hora de ter a mesma coragem e começar a mesma faxina: só que na vida.

Mudar não é uma função do tempo, tampouco das circunstâncias. Ninguém muda porque está ficando velho ou porque mudou de trabalho. Mudar é uma decisão que a gente toma quando descobre que a zona de conforto é o pior lugar para estar. É quando a gente decide deixar pra trás aqueles velhos hábitos que nos destroem, o costume de perder tempo mergulhado no fantástico e irreal mundo das redes sociais, a passividade diante das circunstâncias da vida ou aquele relacionamento que a gente sabe que não vai a lugar algum. É ter coragem de encarar uma mudança no curso da vida mesmo quando isso significa renúncia. É parar de “culpar o destino” e começar a fazer acontecer.

Com o mundo estampado nos olhos naquela tarde de junho em pleno Oriente Médio, entendi que minha vida mudou porque eu mudei. Decididamente, caminhei pela Cidade de Davi, comprei um café com leite, sorri para o céu e dei o primeiro passo rumo ao futuro que eu queria: era hora de tirar um bocado de planos do papel. A gente precisa correr atrás, entrar no ringue para lutar pelo que a gente acredita, parar de se conformar com uma vida resumida em nascer, crescer, casar, ter filhos, envelhecer e morrer. Isso é muito pouco. Eu quero deixar um legado. Eu quero fazer história. Eu quero fazer muita coisa na minha vida. Mas, acima de tudo, quero fazer valer a pena o sacrifício do Filho de Deus por mim naquela cruz. Eu só tenho uma vida. Essa é minha única chance. E eu não vou desperdiçar.

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Sâmela Ribeiro

Uma quase engenheira civil que ama café, viagens, gatos, violão, Netflix, gente e Jesus - não necessariamente nessa ordem.