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Gaiolas que aprisionam. Dependência que liberta

Num desses dias de quietude com Deus, me peguei frente a uma gaiola com um pássaro dentro. Com alpiste, água, poleiros, mas, em grades. Ele estava quieto, não estava machucado, aparentava estar muito bem. Fiquei ali por alguns minutos imaginando que vida esse bicho tinha e comparando a um pássaro que não está engaiolado. Havia na minha meditação, claro, pontos positivos e negativos de se estar dentro ou fora. Dentro, a segurança dos predadores, o alimento e água que não precisa ir atrás e o ambiente favorável da não exposição quanto ao calor ou chuva/frio; mas, as grades limitava seu voo, a liberdade roubada por um prazer besta humano de “ter”. Fora, poder voar pra onde desejar, contemplar toda imensidão que seus olhos podem alcançar; liberdade. Mas, a risco dos muitos predadores, da procura de alimento, etc.

Sendo Deus, o Criador de absolutamente TUDO o que existe, inclusive de mim e dos passados, não resisti a tentação de comparar nossas realidades. Percebi que nessa grande “bolha” que é a nossa vida, somos por vezes aprisionados ora pela sociedade, ora pelos nossos costumes (rotina), ora pelos nossos pecados, ora pelos nossos desejos desenfreados de “ter”, ora pela nossa religiosidade, ora pela nossa independência de Deus, ora pelos nossos medos, ora pela nossa carnalidade, ora pela nossa infantilidade/imaturidade, ora pelo nosso preconceito, ora pela falta de amor ao próximo, e tantos “ora” que poderíamos ficar aqui eternamente falando.

Entramos em gaiolas feitas por nós ou por outros. Gaiolas emoções, sociais, religiosas/eclesiásticas, geracionais, etc. Gaiolas que “nos dão segurança” de fugir do mundo aqui fora, dos conflitos que só quem está vivo passa. Gaiolas que nos trazem alívio, felicidade, prazer, comodidade, que massageiam nosso ego, que nos põe pra cima, mas, gaiolas. Pessoas confundem o que significa a palavra “liberdade”. Acham que poderem fazer tudo, as torna livres. E é exatamente o contrário. Quando você não pode deixar de fazer algo, você JÁ É um prisioneiro. Assim como o pássaro que eu vi, nessas gaiolas, não passamos fome nem sede. O “carcereiro” alimenta-nos, sacia-nos a sede, “protege-nos” do externo, dos predadores. Dependemos de mãos humanas pra matar nossa fome e nossa sede do que é passageiro. Entretanto, ainda sim, nada além de gaiolas.

As piores gaiolas são as que suas portas estão abertas. Estamos tão, mas, tããão acostumados com seu interior que, ou não percebemos que suas portas já não existem mais ou não conseguimos nos afastar deste ambiente. Alguém certa vez sabiamente disse: “Quebre os grilhões da cela, mas, não se assuste se o prisioneiro não sair. Talvez, a cela seja absolutamente confortável”. O grande problema de não se libertar, é que quando se passa muito tempo na gaiola, ao ser liberto, não sabemos como agir. Não temos intimidade com o ambiente da liberdade. Somos alvos fáceis aos predadores.

Te pergunto: Pra que asas, se não podemos, não sabemos ou não queremos voar?
Nas mãos do Pai, mesmo com as feridas do voo, mesmo com as penas faltando, mesmo com a míope sensação de estarmos presos (1 Co 7:22), estamos mais protegidos que nas nossas gaiolas existenciais.
Só um pássaro acostumado com a liberdade, pode sentir verdadeiramente a maravilhosa sensação do vento bater ao seu rosto e movimentar suas penas.
Que esse seja o seu desejo…