Hagar, uma mulher como tantas outras, abandonada.


A bíblia não esconde a marginalização de mulheres, bem como de homens e crianças, no entanto, uma das mais terríveis é a escravidão. No Antigo Testamento existem dois tipos de escravas: a shiphan, que é a escrava virgem e que está a serviço de sua senhora (Gn 16:1, 29:24-29, Is 24:2, Sl 123:2, Pv 30:23), amah, que é escrava pertencente ao seu senhor como concubina (Gn 21:10-13, Jz 9:18, 19:19). Assim, podemos entender que no caso de hagar, é Sara que tem autoridade sobre ela, isto é, Hagar é uma amah que estava a serviço de sua patroa.

Hagar foi uma escrava egípcia e a posteriore de Abraão e Sara. A história de Hagar era escrita nos processos concretos mais intensos de marginalização, além de ser mulher em uma sociedade tribal-patriarcal, era desprovida de dignidade pelo fato de ser escrava, ou seja, uma serviçal que tem “dona”. E ainda para piorar a situação, sua senhora Sara a fez de “tapa buraco” de uma promessa. Hagar teve que deitar com Abraão para atender os caprichos de sua senhora que já estava idosa, estéril e cansada de esperar em Deus. Havia se passado dez anos desde que Deus tinha prometido que lhe daria um filho, porém, nada acontecia precipitadamente ela teve uma ideia que “ajudaria” Deus.

Deu certo, Hagar ficou grávida. Entretanto, as cenas começaram a sair do palco onde Sara era a atriz principal. Não deu outra, Sara ficou com ciúmes (Gn 16:5). A pressão se intensificou na “cabana” de Abraão até porque, por mais que Hagar tenha gerado um filho, socialmente ela continuava sendo apenas uma escrava que foi comprada no Egito, isto é, a sua história não era de patroa e senhora, mas de serva.

Sofrendo pressões psicológicas de sua senhora, Hagar resolve fugir para o deserto e esquecer-se de tudo. Preciso dar uma pausa aqui. Assim como Hagar, também agimos assim, diante das pressões da vida que se manifesta em nosso cotidiano, a única possibilidade de escape é a fuga, somos especialistas em fugir de nossos problemas. Porém, por outro lado, precisamos compreender o porquê da fuga, no caso de Hagar, era pelos maus tratos de Sara (Gn 16:6). Fica a pergunta: por que você foge? Qual é a causa de sua fuga? Será que as fugas mais perigosas não são aquelas que tentamos fugir de nós mesmos?

Deus em favor da dignidade da mulher

Hagar foge para o deserto, mas o Anjo do Senhor a encontrou (Gn 16:7). Deus não perde ninguém de vista, jamais deixa escapar o ridicularizado, maltratado, injustiçado, excluído e abandonado, o Deus das Sagradas Escrituras é como um namorado apaixonado que não perde a sua amada de vista. Observe o que o Anjo disse: e perguntou-lhe: Hagar, serva de Sarai, de onde você vem? Para onde vai? Apenas nessa pergunta podemos encontrar duas coisas fundamentais. A primeira é que o anjo antes de dizer sua situação social (escrava de Sara), a chama pelo nome: Hagar. Deus conhecia toda a sua história de opressão, lutas, fugas, sofrimento e solidão, sabia que era escrava, entretanto, Deus tratou Hagar com dignidade, ao chamar pelo nome Ele estava lutando as lutas de Hagar. Isso parece absurdo para a época, escrava não tem nome, mas função, não tem liberdade, mas está aprisionada, sobretudo aos seus senhores, porém, ao chama-la pelo nome Deus vislumbra que se desvela na individualidade de cada pessoa.

Hagar não é apenas um nome, mas um sinal de esperança em uma sociedade de marginalização. Quantas mulheres foram abandonadas na esquina da vida, muitas que foram chutadas por não atenderem os caprichos sexuais de maridos sem escrúpulos, adolescentes e jovens que ficaram grávidas e pai não teve interesse de assumir, porque segundo ele, nem sabe se realmente e filho é dele, por isso essas moças foram abandonadas e sofrem até hoje. Mães solteiras, divorciadas que sofrem preconceito dentro e fora da Igreja, todas são Hagar, sim, Hagar é o arquétipo de todas as mulheres feridas, abandonadas, maltratadas que teve sua dignidade roubada. Mas Deus não se faz indiferente à marginalização da mulher, se o religioso aponta o dedo culpando-as, Deus resolve abraça-las, se a religiosidade pretende a distância, Deus propõe acolhê-las, se a sociedade machista pisa na dignidade dessas “Hagar”, Deus as promove como seres humanos livres para o amor.

Deus transforma erros em bênçãos

Hagar não errou, Sara sim. Erros não para ser corrigidos e não punidos, por isso o anjo pede para Hagar regressar à sua senhora (Gn 16:9). Perece algo terrível, Hagar foi maltratada por Sara, e ainda precisa voltar e sujeitar-se. Pois é, Deus lhe ordena o mais difícil, Hagar precisava enfrentar não apenas Sara, mas a si mesmo, precisava trilhar as veredas do sacrifício.

Mas o anjo envia Hagar de volta a sua senhora totalmente diferente daquele jeito que ela saiu. Ela retorna com uma promessa: “multiplicarei tanto os seus descendentes que ninguém os poderá contar” (Gn 16:10). Essa promessa tranquiliza o coração de Hagar, mesmo diante da opressão ela tem uma promessa e isso lhe dava esperança para dias melhores. Hagar tem um coração grande, por isso resiste a opressão, quem tem um coração grande enfrenta os desafios da vida de cabeça erguida.

Porém, o que me deixa fascinado em ler essa situação de Hagar, é que Deus aparentemente nada tinha a ver com os projetos de Sara e nem com as desavenças, isto é, Deus poderia se tornar ausente de toda essa situação porque tudo o que estava acontecendo, era fruto de decisões e práticas precipitadas, no entanto, Ele interveio. O erro não foi de Hagar, mas de Sara. Ismael não era para nascer, mas nasceu, e o que fazer agora? Deus percebe que a criança que Hagar está levando no ventre, mesmo não fazendo parte do projeto Dele, pode ser incluso na promessa. Ao invés de rejeitar, Deus acolheu o filho de Hagar, ou seja, transformou o erro em benção.

Um Deus que olha com ternura e amor

Após o encontro com Deus, o autor de Genesis escreve: “Este foi o nome que ela deu ao Senhor que lhe havia falado: Tu és o Deus que me vê”, pois dissera: Teria eu visto Aquele que me vê?(Gn.16:13). El-Roi significa “Deus que olha para mim”. Naquele dia Hagar experimentou a presença de um Deus que a olhou com ternura e amor, essa é o olhar maravilhoso do Senhor.

Existem olhares que machucam, olhares de violência e ódio, mas o olhar de Deus vem com a cura para nossas feridas da alma, promove dignidade e amor. Por isso, em qualquer lugar do mundo onde você estiver, no lugar mais remoto e solitário, o olhar de Deus está sobre você e Ele não será indiferente a sua dor. Assim como Deus não foi insensível a dor de Hagar, jamais será indiferente ao seu sofrimento, o que dói em você, dói também em Deus. Amém

Esse artigo é uma contribuição de nossos leitores.

Autor: Moisés Alves, Um jovem cristão com 28 anos de idade. Nasci e me criei em um “lar” evangélico pentecostal. Teologia e filosofia. Ambas as faculdades me ajudaram a refletir sobre minhas crenças e a realidade cultural, política, social e econômica onde estou inserido. Sou apaixonado pelas Sagradas Escrituras e pela história do pensamento cristão ocidental. Acredito em uma teologia prática ligada a espiritualidade, isto é, uma reflexão teológica nascida do chão da vida em constante dialogo com Deus, por isso comungo de uma teologia de pés no chão e coração em Deus.

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