Intacta

Certa vez ouvi uma história (um conto) interessantíssima. É acerca de um homem indignado com sua vida, o rumo que a mesma estava tomando, suas dores e decepções. E este passou a questionar a Deus por tudo aquilo que lhe acontecera. No meio de uma roda de amigos indaga: “Sou crente, sempre fui aos cultos durante toda a minha vida, já li a Bíblia inteira mais de cinco vezes e, mesmo assim, não me lembro de todas as passagens, já ouvi mais de três mil mensagens pregadas pelo pastor e se eu me lembro de duas ou três delas é muito. Acho que até hoje perdi meu tempo, pois, se sempre me esqueço, seria como se eu não tivesse as visto ou vivido”. Até que uma pessoa próxima se achega e diz: “Engraçado!! Eu também sou cristão e como você, não me recordo de tudo. Sou casado a mais de 20 anos com a mesma mulher. Já tivemos centenas de conversas (pra não dizer milhares), muitos “DR’s”, ela já cozinhou pra mim milhares de vezes nesses anos todos. O curioso é que eu não me lembro de todas as nossas conversas e nem de todos os “DR’s”, mas, sei que estes nos ajudaram a solucionaram problemas ainda maiores. Não me lembro também de todos os pratos que ela cozinhou, porém, eu tenho absoluta certeza que todos eles me alimentaram, me nutriram. Se hoje estou de pé, não foi porque lembro das conversas ou dos pratos e sim porque eles cuidaram do meu corpo e do meu casamento, me fazendo alguém sempre melhor pra minha esposa a às pessoas ao redor…bem como, as vezes em que me alimentei da Palavra”.

Isso me levantou algumas questões:
O primeiro tinha tudo, mas, não conseguia enxergar. Alimentava-se da Palavra de Deus e ainda sim, não O conhecia profundamente; não tinha um verdadeiro relacionamento, era apenas religioso. Colocou suas frustrações e frieza na conta de Deus. O segundo também tinha tudo, mas, conseguia ver a mãos do Senhor em cada detalhe. Sabia, entretanto, que na vida de um cristão nem tudo são flores; há lágrimas, há dores.

O caso aqui seria da falta de memória ou falta de percepção de um deles?
E iria até mais fundo, no entanto, sob outra ótica: sobre o homem que percebia a mão de Deus em tudo o que fazia, ele tinha essa percepção apenas por estar constantemente sensível a isso?
De tudo o que você já viveu em Deus, leu das Escrituras, assistiu de pregações (ao vivo ou na internet), congressos, seminários, ouviu nas canções ou qualquer outro material, todas as suas orações e momentos a sós com Ele, é suficiente?

E esse não é um convite pra deixar de fazê-los diuturnamente, não; é mais uma ampla reflexão do nosso nível de maturidade do que chega a nós, das inúmeras formas possíveis. É claro e evidente que necessitamos da Palavra de Deus TODOS os dias. Não podemos viver somente de pregações passadas, mensagens passadas, experiências passadas, ainda que tenha nos sido benção na ocasião, ainda que tenha ajudado a nos forjar. Deus tem alimento pra fome de cada em um TODOS os dias (“O pão nosso de cada dia nos dai hoje.” – Mt 6:11).

Pois bem, e se não houvesse mais cultos nas igrejas, nos ajuntamentos? E se as canções cristãs não mais fossem tocadas nas rádios ou em qualquer outro lugar? E se não tivessem mais irmãos cristão ao seu redor ou que orassem por você? E se na internet também não se achasse nenhum desses materiais onde se pudesse chegar até Ele? E se a tão profetizada perseguição religiosa de fato batesse a sua porta? E se todo e qualquer conteúdo da palavra de Deus não mais pudesse chegar às suas mãos, de forma alguma?

Diante desse cenário, a pergunta mais desafiadora aqui seria: De tudo o que você já viveu em Deus até hoje, é suficiente pra manter a sua fé de pé, intacta?
Lógico que não seremos perfeitos; pecaremos, cometeremos erros e enganos como todo ser humano. Mas, qual seria a sua maturidade referente ao alimento que está recebendo? (Hb 5:11-14).
Viveremos somente de ajuntamentos e programações eclesiásticas ou seremos maduros na fé?
Alguém certa vez disse: “É preciso ter uma grande fé para um milagre acontecer; mas, é preciso uma fé ainda maior, caso o milagre não aconteça”.

Muita das vezes Deus não fala porque não estamos preparados para ouvir. E quando estamos preparados para ouvir, não estamos preparados para obedecer.

Que sejamos insaciáveis por Deus, da forma como Ele queira falar conosco (e que busquemos isso). Mas, ainda que Ele fique em silêncio, que tenhamos certeza acerca do Deus que temos crido (2 Tm 1:12).

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Elmo do Couto de Oliveira