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Isso não é um adeus…

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É um até logo. Esse é meu último texto por aqui. E eu não quero falar nada muito elaborado não. Quero contar uma história, uma história sobre mim.

Esse ano foi um dos anos mais desafiadores que já vivi. Tudo começou com um dia lá no comecinho do ano que começou estranho. Eu simplesmente sentia tudo fora do lugar, como que fora de órbita. Cheguei a um ponto em que eu sentia que eu precisava de mais. Eu estava cheia mas não satisfeita. Algo estava muito errado. A verdade é que eu perdi a conta dos anos em que eu vinha vivendo no automático. Sabe o que é viver no automático? Já se sentiu assim?

As coisas acontecem e você nem vê. Acontecem. Você perde o brilho nos olhos. Você acorda, de segunda a segunda, com a agenda cheia, e tudo passa rápido demais pra que você se dê conta de qualquer coisa. De repente já é meio dia, de repente já chegaram as seis, de repente o dia acaba, e acaba o mês, e vem o meio do ano, e num piscar de olhos o Natal. “Esse ano passou rápido demais”, a gente diz. Passou mesmo. Passou pela gente e a gente nem viu, nem viveu. É o automático. As coisas que a gente quer fazer a gente não faz. Tem as expectativas alheias, tem as pessoas que a gente não quer decepcionar. E vamos fazendo concessões, aqui e ali. A alma se enche de entulho, os assuntos não resolvidos, essa coisa toda, e a gente já não consegue mais fluir. A gente se sente cheio e quer transbordar, mas não consegue porque algo falta. Tudo parece certo mas não está certo. Chega um dia que a gente acorda e se dá conta: aquela não era a vida que a gente queria de verdade. A gente está vivendo para os outros. E isso não é nada bom.

Olha, tem coisa que não dá pra negociar não. A gente tem que guardar nossos princípios. Sempre. Viver uma vida pautada neles pra ter um norte, sabe? Saber o que fazer quando aquelas questões difíceis da vida vierem, ou mesmo nas pequenas questões do dia a dia. A verdade é que não existe uma receitinha de bolo, uma listinha de pode ou não pode. Se alguém fizer uma pra você, sei não. Melhor ver por você, falar com Aquele que fez todas as coisas — inclusive você. Andar com ele lado a lado, todos os dias. Conversar com ele, como se fala com um amigo que se vê. Ele escuta, sabia? (E qual foi a última vez que você conversou com ele como se ele estivesse bem ali na sua frente?) Ele escuta, e ele fala. Das mais improváveis formas. Porque ele é Deus, e não se pode colocar Deus em caixinhas. Ele não cabe nas nossas limitadas definições. Mas tem coisa que a gente tem que mudar. Tem conceito que a gente tem que mudar. Tem crença que a gente precisa rever. E o processo é longo. Porque se reinventar não é tão glamuroso quanto parece.

Mas é necessário. O dia que a gente acorda e descobre que está vivendo uma vida que não é nossa, que nada tem a ver com o que o Criador tinha em mente pra nós, é o dia em que a gente começa a ser livre, acho eu. O estar presa a coisas que não se quer fazer, a sensação de não ter controle sobre a própria história, o viver pra não decepcionar aos outros, a tentativa frustrada de agradar a todos, o peso de querer acertar sempre — todas essas coisas perdem a importância diante da grandeza do destino que podemos viver em Deus. E nem todo mundo vai entender mesmo. Pode ser que a gente se sinta meio só no processo. Pode ser que a gente erre e erre feio. Mas é importante retornar ao coração de Deus e redefinir a vida. É importante ter a consciência tranquila, sentar com ele e conversar a todo tempo pra botar todos os pingos nos is. A gente precisa viver de verdade. Eu estou aprendendo a fazer coisas bonitas nessa vida que Deus me deu. Não coisas perfeitas, não coisas imaculadas, mas coisas honestas. E eu me prefiro hoje que antes. Lembre sempre:

“Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Portanto, permaneçam firmes e não se deixem submeter novamente a um jugo de escravidão.” Gálatas 5:1

Se eu pudesse terminar minha jornada por aqui com alguns conselhos, eu diria: viva. Viva a vida, ande com o Pai, ele adora passar o dia com você. Ache graça nas coisas simples, dê risada alto, mas chore quando precisar. Ouça mais do que fale, tente entender o lado do outro, não tente ter razão o tempo todo. Demonstre carinho de verdade, cuide da sua família, se permita viver um amor. Ser indiferente pode te livrar de se magoar mas também te livra de viver. Dance quando tiver vontade, sozinho ou acompanhado, faça brigadeiro de panela, faça trabalho voluntário. Tenha coragem de fazer o que gosta na vida, não o que esperam que você faça. Viaje se conseguir juntar um dinheirinho, com família, com amigos ou sozinho. Converse com os velhinhos e escute com atenção suas histórias. Faça novas amizades e retome as velhas. Apaixone-se por você antes de se apaixonar por qualquer outra pessoa, seja você mesmo em todo o tempo e não se diminua pra caber no mundo de ninguém. Tá tudo bem ser você. Você foi ideia Dele. Os ajustes deixa que Ele faz no caminho conforme a amizade entre vocês for ficando mais forte. Porque, sabe, isso é tudo que Ele sempre quis, desde a fundação do mundo.

Obrigada por esses maravilhosos 4 anos junto comigo. Eu amei escrever pra cada um de vocês, de coração.

Por fim, deixo um trecho de Jane Eyre, de Charlotte Brontë:

“Eu me lembrava de que o mundo real era vasto, e que uma quantidade enorme de esperanças e medos, de sensações e emoções, estava à espera daqueles que ousassem sair por ele afora, buscando, em meio a seus perigos, o verdadeiro conhecimento do que é a vida.”

Nos vemos pela vida. Imperfeita vida, mas honesta vida.

Com carinho, da sua colunista mais imperfeita,

Sâmela Ribeiro.