“Mais amor, por favor.” Mesmo?

É fácil falar de amor. Difícil mesmo é colocar em prática. A gente ama os garotos da África, os curdos sem pátria, as vítimas do terrorismo, as crianças abandonadas, as viúvas do sertão. A gente ama no Facebook, no Instagram, no Twitter. A gente ama todo mundo teoricamente. E vive dizendo por aí “mais amor, por favor”. A gente adora falar de amor. Sabe por quê? Porque sabemos que é o certo, porque é o que queremos fazer, e eu entendo. Mas a exposição das nossas ideias quase sempre é a projeção daquilo que queremos ser, nem sempre é o que somos.

Porque amar não é fácil, não é nada fácil. É difícil. É fácil amar quando não há divergência de pensamento, discordância nas ideias, fuga da zona de conforto. É fácil amar quem faz parte do nosso mundinho ou quem está longe dele o suficiente para que as diferenças não sejam relevantes. Mas é tão difícil ser o que projetamos de nós! Pobre da nossa natureza que odeia o desafio tão inconscientemente a ponto de criar tantas barreiras de segregação. O apóstolo Paulo disse na carta aos romanos, capítulo 7, versículos 18 e 19 o porquê dessa luta desgastante entre o “quero ser” e “o que eu eu sou”:

“Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne. Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo.”

Eu olho para mim, vejo a escuridão que emana da minha natureza e me decepciono comigo dia após dia, assim como Paulo. Eu quero esconder essa natureza, eu quero projetar uma versão melhor de mim mesma, eu quero ser alguém que ainda não sou. Eu quero, com todas as minhas forças eu quero. Mas nem sempre eu consigo. É difícil, e os dias terminam frustrados. É tão mais fácil cair no caminho do julgamento! Eu posso pegar esse caminho, mas ele me afasta do mundo todo até que eu fique sozinha e perceba que eu não podia ter desprezado ninguém por cometer erros diferentes dos meus.

Eu só tenho uma saída, então. Preciso de uma conexão com tudo o que é oposto a mim. Preciso de uma plenitude que preencha minha necessidade, de uma soberania que vença minha impotência, de um justiça que reine sobre minha injustiça. Preciso do amor na sua forma mais pura, incapaz de ser corrompida. Preciso de um referencial. Então eu olho para a cruz e o encontro. Eu vejo no que culmina o amor de verdade – sacrifício. Jesus amou todos os seus opostos com o mais profundo e absurdo amor já testemunhado. Jesus amou mesmo quando não era amado de volta. Jesus amou até a morte, morte de cruz. Jesus amou até que em seu corpo já não restasse mais gota alguma de sangue. Jesus amou a ponto de não usar o seu poder e sua liberdade de escolha para fugir do plano da salvação. Jesus amou até me constranger. E continua a me amar, mesmo quando nem mesmo eu me amo.

O amor andou entre os homens, mas não foi reconhecido. Nosso conceito de amor talvez esteja deturpado. Temos acreditado, no decorrer dos tempos, em duas grandes mentiras. A primeira é que, se discordamos do estilo de vida de alguém, devemos responder com ódio, medo e rejeição. A segunda é que, se amamos alguém, devemos concordar com absolutamente tudo o que ela acredita ou faz. Ambas não fazem sentido. Jesus não comprometeu convicções mas foi movido por compaixão em todo o tempo. Ele não relativizou princípios para começar a amar. Mas amou, amou, amou até que o amor culminou em sacrifício. Ele se entregou para que eu e você pudéssemos entender que toda a lei se resume à dois mandamentos. E esses dois mandamentos falam de amor. Primeiro a Deus, depois ao próximo. Se cumprimos o primeiro, o segundo é consequência.

Ao não condenar aquela mulher que, pela lei, supostamente deveria ser apedrejada, Jesus queria ensinar para mim e para você que quem julga não tem tempo de amar. O rei do universo, rosto ao chão, não observou a imensa lacuna entre o perfeito e o imperfeito. Ao contrário, ele deu àquela mulher uma chance de recomeçar. Um chance que um dia nós precisamos, uma chance que as pessoas ao nosso redor precisam também. A essência do cristianismo é um amor que transforma, que eleva a níveis mais altos, que sacia a fome inesgotável por algo que nada no mundo pode oferecer. O que passar disso não é cristianismo. Preciso voltar aos meus inícios para relembrar o meu propósito. Ele me amou, e eu não tenho outra opção senão amar. Porque amar o semelhante é natural, mas amar o diferente é sobrenatural. Vem Dele e volta para Ele.

RELACIONADO
COMPARTILHE ESTE ARTIGO:
 

Sâmela Ribeiro

Uma quase engenheira civil que ama café, viagens, gatos, violão, Netflix, gente e Jesus - não necessariamente nessa ordem.