O que está do lado de dentro…

A madrugada foi de insônia. No auge de sua velhice, vira para um lado, vira para o outro, levanta-se, volta a deitar. Pensamentos diversos permeiam sua mente não o deixando relaxar. Em meio a esse turbilhão de coisas em seus devaneios ele pensa: “Eh, Deus é bom!”

O dia amanheceu fechado; cinzento; chuvoso; e mais que isso, tempestades de tempos em tempos. Uns diriam: “Que tempo feio!”. O frio gélido lá fora, ruas desertas, o uivo do vento torna tudo meio sombrio. A senhorinha recorda-se do seu velho que já se foi, vê esse cenário e reflete: “Eh, Deus é bom!”

A caminho da escola, o jovem rapaz ainda lembra-se da briga de seus pais na noite anterior. Não sabe ao certo o motivo do desentendimento, até porque, eles se amam tanto. Um aperto no coração faz brotar uma lágrima em seus olhos. Na vergonha de que o vejam, enxuga o rosto e imagina: “Eh, Deus é bom!”

Levanta-se do chão, dobra o papelão (sua cama), recolhe alguns retalhos que o aqueceram à noite. Pega a garrafa d’água pra lavar o rosto, come o restante do pedaço de pão que conseguira no dia anterior; divide com seu melhor amigo cheio de pulgas e fala: “Eh, Deus é bom!”

“Vem pra cama, já está tarde”, diz ele. “Não consigo”, ela responde, ainda de pé até essa hora da madrugada, esperando a filha chegar da balada. O filho também anda meio estranho, agressivo, irresponsável. Eles confiam que voltarão; não somente pra casa essa noite, mas, pra Casa do Pai. Talvez tenham falhado na educação, no caminhar, na instrução, exagerado, relaxado. Talvez não. Talvez tenham uma segunda chance de fazer diferente. Talvez não. Ainda sim, com a força de uma leoa cuidando de sua cria ela afirma: “Eh, Deus é bom!”

Longos períodos de estudo, cursinhos, viagens cansativas do trabalho pra faculdade, namoro terminado por falta de tempo (ou de imaturidade de ambos, ou de saber que ele não a merecia; não tinham o mesmo propósito de vida). Vem a tão esperada prova; o concurso que ela sonhava há tanto tempo, é concorrido. Sai-se muito bem, porém, não atinge a nota necessária. Diante da tela do computador e o aperto no peito suspira: “Eh, Deus é bom!”

É chamado às pressas para uma reunião. Estranho não estar todos presentes como de costume, só o alto escalão. Depois de gráficos, números, planilhas, cochichos à parte, explicações do momento ruim que atravessa a empresa, um envelope pardo no canto da mesa e ele mudo, assim como chegou. O gerente toma a palavra, e ele quase não prestou atenção, distraído pensando no futuro da Ana Luísa, que nasceria em menos de um mês depois de uma complicada gravides. Depois de algum tempo, entra pra triste estatística a caminho do RH. Com o envelope pardo na mão diz: “Eh, Deus é bom!”

Pega a toalha, as roupas, os cremes e vai ao banheiro. Já está atrasada pra um importante compromisso. Só o tempo de uma rápida ducha e já parte. Olha ao espelho, levanta um dos braços e apalpa os seios, como de costume. Alguns poucos segundos e…seu coração petrifica, sua espinha se contorce, um arrepio dos pés à cabeça quando seus dedos tocam num caroço logo ao lado da mama direita. Repete o autoexame e confere; ele está ali. Com a voz ainda embargada declara: “Eh, Deus é bom!”

Em comum para eles, só o fato de que, O que está do lado de dentro, não é influenciado pelo que está do lado de fora.

E, apesar dos pesares, Deus é bom…é sempre bom!!

#Salmos118

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Elmo do Couto de Oliveira