Tira o Sapato


Ei garota!

Ei, psiu! Você mesmo, é você!

Você que está com um sorriso no rosto mas guarda algumas feridas no coração.

 Te vi um dia desses na rua, andando por aí. Tinha uma lista na mão, cheia de coisas para fazer, terminar e resolver. Fiquei te observando de longe. Não, não estava te perseguindo ou coisa parecida. Só notei em você algo que vi em algum outro lugar antes. Isso, é. Vi em você algo que eu já tive. E não pude deixar de ver que você estava andando um pouco torto, sabe? É, como se algo machucasse você ou melhor, apertasse seus pés.

E foi isso: nós duas já usamos esses mesmos sapatos. Quer dizer, você ainda os usa. Eu resolvi deixar os meus por aí.

E garota, os seus sapatos estão reluzentes. De longe, são brilhosos. São de tirar o fôlego de qualquer menina. Mas cá entre nós? Em uma outra época da minha vida eu mataria para ter um sapatos desses. Faria qualquer coisa para usar um igual ao seu. Na verdade, eu já fiz. Corri atrás de muitas coisas para ter um par desses “maravilhosos” calçados.

Mas menina, escute. Preste bem atenção: se algo te aperta, não faz bem. Mas eu te entendo, não é tão simples abrir mão de algo que buscamos por muito tempo. Talvez não te incomode tanto agora. Quem não consegue conviver com um calo ou outro? Não foi para isso que inventaram os band-aids?

Acontece que com o passar dos dias, precisamos ir mais longe. Mais adiante. É preciso andar mais um pouco para alcançarmos nossos sonhos, vontades e desejos. E para uma boa caminhada, o que calçamos é essencial.

Uns tempos atrás eu estava na rua também, carregando uma lista e tinha muitos compromissos. Vi uma moça, bem parecida comigo, andando descalça pelas vilelas da cidade. Reparei que além disso, ela tinha algo mais. Tinha um sorriso no rosto, bem diferente do meu. O sorriso daquela moça era verdadeiro, sincero. Quando perguntei o que a fazia tão bem, ela me respondeu: “Tirei os meus sapatos, eles machucavam demais. ”

No mesmo instante, olhei para os meus pés. Ela deu uma risadinha, e antes de sair andando, me disse: “Não tenha medo de tirar os seus também. ”

É menina, você já consegue imaginar o final da história. Terminei a minha lista ao final do dia e o que a moça tinha me dito não saia da minha cabeça. Resolvi sentar no banco da praça e experimentar tirar os sapatos altos que tanto incomodavam. No começo, fiquei com medo de ferir meus pés com a rua e fechei os olhos. Mas ao sentir o vento passando pelos meus dedos, abri os olhos aliviada. Respirei fundo e dei alguns passos para longe do banco, deixando meus sapatos para trás. Dei de cara com uma praia, e minhas pernas me levaram para perto do mar. Encarei a água gelada que fizeram cócegas nos meus pés. Nunca tinha experimentado algo assim, menina! Foi assustador e reconfortante ao mesmo tempo.

Ando, hoje, descalça também. E agora, te vendo de longe, espero que você resolva um dia tirar seus sapatos. Eles podem até ser lindos, mas não te servem mais. Tenha coragem para viver sem o que te amarra e machuca. Pode ser intimidante no começo, mas seu sorriso será mais autêntico. É que quando estamos à vontade, até nosso riso é leve.

Rebeca Brito de Andrade
Rebeca Brito de Andrade Facebook Twitter Imprimir

Tem 22 anos, é uma psicóloga em construção. Acredita no poder que as pessoas têm de mudar e transformar o mundo delas. Prefere café com leite, sobremesa e só come bolo no dia seguinte. Ah, é, também, filha de pastor!

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