Tudo bem se a gente não entender tudo

Digo verdadeiramente que, se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, continuará ele só. Mas, se morrer, dará muito fruto.‭‭
João‬ ‭12:24‬
Antigamente, na era dos discos de vinil, das fitas e dos compact discs, os CDs, a gente comprava o álbum todo, às vezes, por causa de uma música. Não importava se a gente não gostava das outras. Elas faziam parte do álbum. Ou comprava o álbum com todas, as legais e as não tão legais assim, ou não comprava nada, o que para os millenials da era do Spotify, do Deezer e da Apple Music não faz o menor sentido. Hoje a gente usa disco de vinil e CD para decorar barzinho cool que toca indie. Ninguém quer comprar um álbum que não satisfaça 100%.
Mas não estou aqui para discutir isso, na verdade. O que eu quero é só fazer o leitor viajar no tempo dos discos de vinil comigo. O tempo em que a gente sabia que nem tudo era do jeito que a gente queria a princípio,  em que a gente não vivia obcecado por levar vantagem em tudo, em que a gente sabia que altos e baixos faziam parte do caminho. Mas aí a gente passou a cultuar o prazer absoluto, e foi aí que a gente se perdeu.
Eu costumava pensar que apenas os maus sofriam. Deve ser por isso que a gente que é do bem (você é do bem?) vez ou outra se pegou sentado na pontinha da cama se perguntando o que é que tinha feito de errado para merecer tal coisa como o sofrimento, a dor, a tristeza. A verdade é que muita coisa na vida nada mais é que a gente plantando o que colheu sim, mas nem tudo pode ser assim tão fácil de entender. Tem coisa que fica fora dessa lógica. E a gente faz o quê? Quebra a cabeça tentando entender? Sugiro outra coisa.
E se a gente olhasse pra vida de outro jeito? E se a gente entendesse que a vida vale a pena não só pelos bons momentos mas por tudo que acontece entre eles? E se a gente pudesse ver quanta coisa boa é produzida em nós quando a gente deixa Deus usar a nossa dor pro nosso bem? E se a gente parasse de procurar um culpado e virasse um protagonista?
Os topos das montanhas não são a história. Eles são a celebração de tudo que a gente viveu. Jesus disse que, se o grão de trigo não morresse, ficaria ele só, mas, se ele morresse, os frutos seriam muitos. Deus faz com que todas as coisas cooperem para o nosso bem. Ele trabalha nas mais adversas circunstâncias. E sabe produzir coisas lindas em nós e através de nós até mesmo dos nossos momentos de maior dor. Nem tudo que parece morte é morte; algumas vezes, morte precede ressurreição.
A vida trabalha na dinâmica do disco de vinil. Na vida, você não pode escolher só as músicas que você gosta do álbum. Elas vêm todas, uma de cada vez, na ordem que elas tem que vir. Já aconteceu com vocês de escutar uma música, detestar a princípio e depois acabar gostando? Então. Tem coisa que é assim mesmo. A gente não engole de cara, mas com o tempo aquilo que antes era ruim acaba sendo bom. Sabe por quê? Porque a vida tem desfechos que a gente não entende, e tudo bem não entender tudo. Tá tudo bem. Deus faz com que todas as coisas cooperem para o nosso bem.
Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses.
Rubem Alves

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Sâmela Ribeiro

Uma quase engenheira civil que ama café, viagens, gatos, violão, Netflix, gente e Jesus - não necessariamente nessa ordem.